A Crença Nossa de Cada Dia

Tenho um tio que mudou de religião.

Acho que todos nós temos alguém que deixou de ser alguma coisa em algum momento da vida. Talvez até nós mesmos o tenhamos feito algum dia. E que mal há nisso?

Bem, há muitas pessoas por aí que são como o meu tio. Muitos deles já passaram por mais de cinco ou seis religiões e continuam suscetíveis a qualquer eventual mudança. Aliás, não é mudança: segundo muitos, é BUSCA.

E que mal há nisso, Deus do céu?

Nada, se religião não for realmente importante. Muito, se pensarmos o contrário.

O fato de que cada um possa mudar de religião a seu bel-prazer não abriga problema algum, afinal, no Brasil existe,
o que é muito bom, grande liberdade em relação ao tema.

No entanto, alguém “mudar” de fé sem pensar duas vezes, por fatos dos mais triviais, revela uma procura não por um Deus, mas por todo um meio-ambiente, um aparelho de coisas; na verdade, por elementos puramente sociais ou que se
encaixem ao seu modo de viver, longe de qualquer fagulha de espiritualidade ou evolução.

Basta um ser que se locomova passear por qualquer bairro de São Paulo (Brasil) para se deparar com um bom número
de igrejas, algumas das quais simples armazéns com portas de aço ao mais puro estilo “padaria de bairro” (só que sem cerveja e sem X-salada mas com muita caixinha). Cada uma destas padarias da fé configurada para determinado tipo de “crente”: para os que acreditam no evangelho X, outros que concordam com tal coisa que ocorreu em X parte da Bíblia, mas interpretam de um modo diferente da igreja Y.

Afora os que realmente se fincam em uma igreja por alguma sorte de convicção realmente constante nas Escrituras (embora “constar” seja sujeito a interpretações das mais variadas), existem os turistas, os que mudam, migram quando o pasto fica escasso (e “pasto” aqui tem uma gama enorme de significados) ou quando haja algo que não se encaixe em seu modo de ser. Aí, basta entrar em outra e dar testemunho do quão ruim foi a experiência anterior e fazer novos amigos: aproveitar os novos horizontes.

Isso acontece em igrejas e templos (seja lá qual for a diferença entre as duas) e tudo que envolva crenças devidamente formalizadas (ou não) e sediadas (ou não). Embora o Papai Noel esteja sediado no Pólo Norte, não conta. Ele não pede, ele dá.

Esse meu tio entrou numa seita secreta, que existe há mais de 16.000 evoluções terrestres, fundada por alienígenas do planeta Sonja, na galáxia de Conan. Foram expulsos por não acreditarem no então líder da Espada Selvagem de Uruk, Bramir.

Dizem que existe uma certa analogia mística desse pessoal degregado e a Bíblia Sagrada e a expulsão dos anjos caídos… Vai brincando!

Mas esse meu tio não fala mais Amén, e sim Bakelai. Reza diante de um círculo de mármore amarelado com pedestal,
vendido-cedido pela Ordem por um preço “de Deus pra filho”, apenas para manutenção das bases terrenas.
Lê um livro (e só um), cedido do mesmo modo pela Ordem, e encontra semanalmente seus irmãos de Sonja.

Bem, tanto as ovelhas acima que mudam de pasto quanto esse meu tio procuram não um Deus, mas novidade, gente nova, linguajar novo. Procuram  tudo menos evoluir ou algo no quesito aperfeiçoamento.Procuram, na verdade, achar um lugar onde se sintam confortáveis do jeito que são, sentindo-se puras e superiores, a despeito de todo o rol de defeitos dos quais são hospedeiros.

Enfim, o tal sincretismo que existe aqui no nosso Brasil é um sinal de liberdade belíssimo, sem margem de dúvida. (Não para mim, mas fica bonito falar isso).

Bem, eu posso mudar de religião, posso frequentar duas, posso acender uma vela pra Xogun e outra pra Sandokan.

Isso demonstra, muitas vezes enganosamente confundida com “mente aberta”,  falta de fé e falta de seriedade no que se “acredita”  ou, o que é mais triste,  tentativas de testar todas e ver qual dá o resultado desejado, tendo em mente apenas o “venha a nós o Vosso Reino”.

Confesso que já não acredito em muita coisa. Acredito, porém que acreditar não pode ser menos que torcer pelo meu time.

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