Choupos

Minha vida sempre foi um quarto cheio de coisas.

Embora pequeno, seu papel de parede era um bosque de choupos à noite, o que lhe concedia uma imensidão maravilhosa.

O teto era cheio de estrelas e tinha uma lua vigorosa que iluminava as árvores e o caminho desenhados nas paredes.

Toda essa beleza me fascinava

Eu, me entregava de alma e corpo aos meus brinquedos diários, mágicos e cheios de cores e formas, rodeado por todo esse mundo. Um mundo lindo. Meu mundo.

Algumas vezes cogitava viajar, ver outras paragens, entrar naquele bosque, pegar o caminho… Mas eu tinha medo e todo o tempo do mundo. E tinha meus brinquedos!

O bosque sempre estaria ali.

Por ter certeza que poderia sair quando desejasse, nunca saí.

Morri.

O que nunca compreendi quando vivo, é que eu estava preso num quartinho, com paredes decoradas de ilusão. Mas por me achar livre, nunca vi que toda a possível liberdade era um sonho: tudo o que era oferecido como horizonte desapareceria tão logo eu desse alguns passos rumo ao choupal.

Por me achar livre, nunca fui livre. Por saber ter o mundo, nunca saí do meu quarto. Por saber tudo, nunca soube nada.

Nem sei se, mesmo após ter morrido, estou realmente livre.

É porque não confio mais em liberdade alguma.

One Response to “Choupos”

  1. Renata Tolentino Says:

    Olá colega de faculdade! rs

    Não sabia que você tinha um blog… acabei de ver no Twitter e vim aqui dar uma lida na madrugada…

    Gostei muito!!!

    Continue atualizando, agora você ganhou mais uma leitora rs

    Esse texto aqui ficou belíssimo… “Coisas da vida que morrem”, particularmente, então, é um lindo texto, e me deixou sem ar por uns segundos, não esperava o fim e levei um sustinho rs Um texto muito tocante, fato!

    Abraço!

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