Coisas da vida que morrem

Me lembro muito bem da noite do velório do meu pai.
Aquele peso sem ar, realidade meio onírica, meio chuva, meio lama, meio tudo o que ninguém esperava acontecer, mesmo tendo consciência disso a vida toda. Nunca é diferente: o trem chega sem avisar e não há relógio na estação.
Me lembro do sonho que tive um dia depois, onde o livro de presença do velório havia sido assinado por um “visitante” de nome exótico, mas com caligrafia idêntica à do meu pai. Isso me confortou muito naquela hora, pois significava que ele ali estivera, e, sendo assim, havia vida após a morte, a despeito de tudo o que me era mostrado e dos rostos pálidos e incertos das pessoas que rodeavam o caixão.
Me lembro das coisas que não falei, do abraço que dei meio sem jeito e dos que sequer dei, dos minutos que recusei, sempre confiando na eternidade dos momentos futuros. Mas esses momentos, em um dia como outro qualquer, não vieram mais. Tudo o que nunca fora dito jamais seria dito. Embora tenha escrito dois ou três poemas após sua morte, sei que serão lidos apenas pelo deus do nunca, o deus de um universo paralelo, onde tudo o que não foi, é. Se é que é.
Os anos se passaram e a vida, como sempre, brotando e matando aos milhares, me fez novamente surdo aos clarões que a morte traz. Novamente, os momentos se tornaram coisas adiáveis. Novamente me tornei humano, cheio de certezas e cheio de “amanhãs”.
Há pouco tempo, estava refletindo sobre uma frase, acho que de Fernando Pessoa, que diz que em um velório, o único defunto são as coisas que não fizemos ou não dissemos.
Há pouco tempo também, fui a um velório de um pai de um amigo meu. Lembro que vi esse meu amigo desmoronado, sem pilar, sem norte nem oriente. O mundo cai, tudo perde o sentido e todos se tornam pontos de interrogação. Não tem jeito. Fiz “minha parte” e fui dar meu apoio. Algo me dizia para lhe contar sobre o meu sonho, o da assinatura do meu pai, para que, de alguma forma, ele visse que a morte é apenas uma passagem…
Achei meio patético naquela hora. Em outra hora contaria, em momento mais apropriado.
O mundo é cheio dessas coisas e a gente nunca aprende: não mencionei o sonho.
Só que uma semana depois essa possibilidade estava enterrada.
Meu amigo havia falecido.
E com ele, terra abaixo, o sonho que não contei.
October 1st, 2009 at 12:30 pm
Isso me faz pensar no quanto nós, seres humanos, somos certos por coisas incertas e incertos por causas certas.
Por tanto acreditar na posteridade, sempre me vejo jogando o hoje para amanhã.
Mas no fundo, com isso, a impressão que tenho é a da supressão do ontem. Até porque hoje é hoje, não pode ser amanhã!
Ainda que amanhã, hoje se transforme em ontem, a minha única certeza é a de que por algum motivo somos escravos do tempo. E com a certeza do incerto carregamos coisas, palavras e pessoas dentro do relógio, convictos que elas terão sempre ‘alma’ no infinito futuro da fantastica e medíocre imaginação humana.
November 13th, 2009 at 9:57 am
Qual é o momento mais apropriado? É difícil de saber. O meu momento é diferente do seu.
Muitas vezes nos imaginamos ser patéticos diante de uma situação e postergamos o momento, para enfim, tomados de coragem, podermos exteriorizar o que imaginamos não ser tão importante para o outro naquele instante… mal sabemos que aquele é único. O hoje jamais voltará e mesmo que fosse possivel, não seria igual, uma vez que já o conheceríamos…
Nossa intuição é nosso guia. “Carpe Diem”